Análise de CD – Ouvimos o novo disco de Davi Sacer pela Som livre – Venha o Teu Reino. Confira a nossa opinião (Análise)



É impossível não falar em Davi Sacer sem ligar sua imagem às canções neopentecostais que foram hits em sua carreira. Embora o músico, em seu novo trabalho Venha o Teu Reino aborde temas esquecidos em seus dois últimos e fracassados projetos solo, ainda teremos sua antiga vibe em nossas mentes. Foi na hora certa em que o músico decidiu mudar seu rumo, tornando-se prova de que Sacer não deseja apresentar meramente sequelas de seus antigos álbuns. A sensação de ouvir seu lançamento é que conceitualmente não é o mesmo Davi de dois, três anos atrás. Se estiver em dúvida, isso é um elogio.

Quando digo que mudou, foi tudo. Todos os aspectos, no que tange a produção musical, arranjos e conceito das letras ganha uma cara diferente do que Davi estava apresentando. Se antigamente, nos tempos do Trazendo a Arca a dupla Arcanjo/Sacer era memorável e se complementava nas melodias de Ronald Fonseca, em carreira solo o cantor necessitou de se reinventar, e com Kleyton Martins parece ter finalmente encontrado o caminho certo.

Como um álbum temático que se recusa a olhar para o passado, somos presenteados com Quanto Mais Te Conheço (que abre o disco de forma estratégica), E Se (ótima, e muito bem escolhida regravação na autoria de Stênio Marcius) e também a faixa-título Venha o Teu Reino (escrita por David Cerqueira). Nos versos de Eu Entrego Tudo (com sua introdução memorável utilizando cordas e sintetizadores), temos um Sacer que canta: “Eu não busco o que tens / Quero conhecer quem Tu és / Pois já decidi morrer / Para que o Senhor viva em mim”. Grande parte do CD resume-se a “Eu Espero em Ti”, música do projeto de estreia (e até agora melhor álbum) de Davi Sacer.

Mesmo assim, este novo trabalho falha por não ter a mesma energia que os álbuns em seus tempos de ouro (como Pra Tocar no Manto, Marca da Promessa e Olha pra Mim) e até mesmo Deus não Falhará. O motivo é a falta de uma organização e ordem consistente do repertório, que lembrando novamente, está ótimo. Isso, ao que parece está sendo um problema geral na maioria dos músicos e grupos congregacionais, e Sacer não ficou ileso.

Em algumas canções, Davi soa arrastado, como na desnecessária Deus Faz Tudo Novo. Salmo 40, apesar de agradável tem muito do estilo pop rock de David Cerqueira, autor da canção, e certamente seria melhor que ele mesmo gravasse sua obra. Por outro lado, a ligação perspicaz entre Único Senhor, canção totalmente autoral e a versão Humildade é um dos enormes destaques do álbum. A letra mostra que Sacer tem um enorme potencial para continuar surpreendendo nos próximos anos, e que seu papel como compositor antigamente nem sempre foi secundário. Kleyton Martins construiu uma sonoridade imponente e envolvente, com destaque para o solo de guitarra.

Curioso é que desde sua saída do Trazendo a Arca o cantor participou pouco da parte de composição, delegando tal função para letristas como Davi Fernandes. Neste último, o cantor ainda é coautor de algumas, mas pelo menos, na maioria delas há a sua participação e por consequência temos um disco com mais personalidade em relação ao seu inédito de 2012.

Reflexivo e mais maduro, o projeto gráfico, feito por David Cerqueira (que também assinou três faixas do álbum) deixa implícito que Cristo como centro nos faz lembrar de que nada nos pertence. Uma capa sem fotos de Sacer seria mais apropriado para o disco e o tom de simplicidade e profundidade a faz ser a melhor dentre todos os trabalhos solos do cantor.

Venha o Teu Reino vem um pouco na contramão de tudo. Na contramão do que Davi Sacer vinha apresentando, e principalmente na contramão do que está sendo destaque atualmente no mainstream do gospel. Com canções reflexivas e intimistas, fraseados imprevisíveis que fogem de mensagens positivistas infundadas e uma consistência a caminho do ideal, não é o melhor disco do cantor, mas uma prova concreta de que há esperança para o fim de sua acomodação como artista e compositor. Para um ano decepcionante em lançamentos, não há dúvidas de que a obra de Sacer seja uma das melhores de 2014 na cena.

Este post eu vi lá no: Supergospel - Música gospel.

Be the first to comment

Leave a comment

Your email address will not be published.

*